A dimensão política das práticas de metrificação: a inclusão da categoria Sul-Norte nos relatórios COBRADI
Author:
Kiefer, Bernardo Almada
Abstract:
No ano de 2010, na esteira de uma década em que a participação brasileira em discussões multilaterais e fóruns internacionais ganhou volume e repercussão, o governo brasileiro, em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), publicou a primeira edição do relatório “Cooperação Brasileira para o Desenvolvimento Internacional” (COBRADI), um mapeamento das iniciativas e gastos com cooperação internacional das instituições ligadas à administração pública federal. A premissa do relatório é quantificar e descrever as práticas próprias do Brasil no âmbito da cooperação, englobando as particularidades inerentes às instituições do país. Nesse sentido, o documento apresentou, ainda em sua primeira edição, distinções com relação às práticas de metrificação e conceituações de cooperação adotadas pela OCDE, instituição que tradicionalmente rege essas esferas em nível global. Tendo em vista que, historicamente, a metrificação da cooperação internacional é muito influenciada por paradigmas hierarquizados de distinção entre Norte e Sul global, mas ao mesmo tempo passa por um processo de transformação contínua desde sua origem, o presente trabalho visa investigar a inclusão da categoria de fluxos de cooperação “Sul-Norte” pelo Brasil nos relatórios COBRADI. Busca-se, assim, compreender o significado político da adoção dessa nomenclatura e a forma como o aparente rompimento com o padrão vigente reflete também a percepção do próprio Brasil quanto ao seu papel dentro dos fluxos internacionais de transferências de recursos para o desenvolvimento. Para isso, a pesquisa adota como metodologia uma combinação de análise documental dos relatórios COBRADI (2010-2024) com revisão de literatura sobre os paradigmas da cooperação internacional para o desenvolvimento e sobre fluxos Sul-Norte, buscando fazer inferências sobre o significado da inclusão do termo nos relatórios e as instituições que aparecem mais comumente atreladas à categoria em questão. Ainda que a origem específica da decisão de incluir os fluxos Sul-Norte não possa ser traçada a um único indivíduo ou instituição específicos, os resultados apontam para um protagonismo das instituições de educação, ciência e pesquisa brasileiras como principais vetores no estabelecimento de relações com o Norte global. Além disso, a análise textual dos relatórios COBRADI e de obras e artigos publicados por seus editores ao longo dos anos indica que houve um processo de amadurecimento quanto à discussão sobre Sul-Norte, que posiciona o relatório entre o rompimento total com as métricas tradicionais e uma simples adaptação do que é institucionalizado hoje.