| Title: | A localização do dano em ações decorrentes da frustração de escolhas reprodutivas: uma análise crítica da jurisprudência francesa |
| Author: | Linhares, Julia Oliveira Alves |
| Abstract: |
O trabalho analisa a localização do dano em demandas de responsabilidade civil médica decorrentes da frustração de escolhas reprodutivas na jurisprudência francesa. Investiga-se se a orientação segundo a qual o nascimento de uma criança saudável não constitui, por si só, prejuízo reparável pode ser utilizada para afastar, de maneira geral, a reparação das consequências decorrentes da faute médica. A pesquisa adota abordagem qualitativa, bibliográfica e documental e compreende todas as decisões localizadas, até junho de 2026, nas bases Dalloz, LexisNexis, Lexbase e Légifrance que se enquadravam no recorte estabelecido, complementadas por doutrina e legislação. Foram examinadas demandas fundadas em falhas médicas relacionadas à esterilização feminina ou masculina, a métodos contraceptivos e à interrupção voluntária da gravidez, limitando-se, quando houve nascimento, aos casos envolvendo crianças saudáveis. A análise demonstra que a jurisprudência francesa preservou a recusa do nascimento como prejuízo, mas reconheceu progressivamente, de forma casuística, consequências relacionadas à gravidez não desejada, à descoberta tardia de sua continuidade, à privação da possibilidade de realizar tempestivamente a interrupção voluntária da gravidez, à ausência de preparação e a repercussões corporais, psíquicas, profissionais e patrimoniais. A inexistência de uma categoria geral capaz de explicar essas soluções produziu uma tutela fragmentada, na qual o reconhecimento dos prejuízos depende da forma como cada julgador identifica o dano e reconstrói a cadeia causal. Conclui-se que a recusa do nascimento como prejuízo não autoriza a exclusão indiferenciada de todas as consequências da faute. A centralidade atribuída à criança ou à sua existência pode obscurecer o reconhecimento da lesão a uma escolha reprodutiva juridicamente protegida. O dano inicial pode ser localizado na frustração dessa escolha, enquanto os prejuízos correspondem às suas repercussões concretas e devem ser examinados individualmente segundo as exigências de certeza, pessoalidade, legitimidade e causalidade. O nascimento pode integrar a cadeia causal sem ser qualificado como dano, e as decisões posteriormente adotadas pela vítima não rompem automaticamente o nexo causal. Essa reconstrução preserva a dignidade da criança sem tornar juridicamente neutra a atuação médica que privou a vítima do controle sobre sua trajetória reprodutiva. Ce travail analyse la localisation du dommage dans les actions en responsabilité civile médicale résultant de la frustration de choix reproductifs dans la jurisprudence française. Il cherche à déterminer si l’orientation selon laquelle la naissance d’un enfant en bonne santé ne constitue pas, à elle seule, un préjudice réparable peut être utilisée pour écarter, de manière générale, la réparation des conséquences résultant d’une faute médicale. La recherche adopte une approche qualitative, bibliographique et documentaire et porte sur l’ensemble des décisions recensées, jusqu’en juin 2026, dans les bases Dalloz, LexisNexis, Lexbase et Légifrance, qui relevaient du champ délimité, complétées par l’étude de la doctrine et de la législation. Ont été examinées les demandes fondées sur des fautes médicales relatives à la stérilisation féminine ou masculine, aux méthodes contraceptives et à l’interruption volontaire de grossesse, l’analyse étant limitée, lorsqu’une naissance est intervenue, aux cas concernant des enfants en bonne santé. L’étude montre que la jurisprudence française a maintenu le refus de considérer la naissance comme un préjudice, tout en reconnaissant progressivement, de manière casuistique, des conséquences liées à la grossesse non désirée, à la découverte tardive de sa poursuite, à la privation de la possibilité de recourir en temps utile à une interruption volontaire de grossesse, au défaut de préparation ainsi qu’à des répercussions corporelles, psychiques, professionnelles et patrimoniales. L’absence d’une catégorie générale permettant d’expliquer ces solutions a conduit à une protection fragmentée, dans laquelle la reconnaissance des préjudices dépend de la manière dont chaque juge identifie le dommage et reconstruit la chaîne causale. Il est conclu que le refus de considérer la naissance comme un préjudice n’autorise pas l’exclusion indifférenciée de toutes les conséquences de la faute. La centralité accordée à l’enfant ou à son existence peut occulter la reconnaissance de l’atteinte à un choix reproductif juridiquement protégé. Le dommage initial peut être situé dans la frustration de ce choix, tandis que les préjudices correspondent aux répercussions concrètes de cette atteinte et doivent être examinés individuellement au regard des exigences de certitude, de caractère personnel, de légitimité et de causalité. La naissance peut s’inscrire dans la chaîne causale sans être qualifiée de dommage, et les décisions ultérieurement prises par la victime ne rompent pas automatiquement le lien de causalité. Cette reconstruction préserve la dignité de l’enfant sans neutraliser juridiquement la conduite médicale ayant privé la victime de la maîtrise de son parcours reproductif. |
| Description: | TCC (graduação) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências Jurídicas, Direito. |
| URI: | https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/274962 |
| Date: | 2026-08-03 |
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