| Title: | Agentes e paisagens: um estudo antropológico sobre a singularidade natural, morfologia e política no Geoparque Grutas do Palácio (Flores, Uruguai) |
| Author: | Palma, Pedro Guzmán Chaves |
| Abstract: |
A patrimonialização de um território opera simultaneamente como revelação e como ocultamento, ao tornar legíveis certas feições do solo, certos saberes e certas vozes, relega à condição de ruído outras feições, outros saberes e outras vozes que coabitam o mesmo espaço. Esta dissertação toma como objeto essa dupla operação a partir de uma etnografia do Geoparque Grutas do Palácio, único geoparque UNESCO do Uruguai, situado no departamento de Flores. O trabalho se inscreve na interseção entre antropologia do patrimônio, antropologia da paisagem e ecologia política, e propõe tratar a entropia (entendida como medida da incerteza perceptiva e semântica sobre o que resulta relevante em um ambiente) como heurística para ler os efeitos da classificação institucional sobre um território habitado. O marco teórico articula a paisagem como prática de habitar, o assemblage como fricção entre escalas heterogêneas e o patrimônio ambiental como superação da dicotomia natureza/cultura. Metodologicamente, a pesquisa se constrói desde a posição de vizinho-pesquisador (o autor nasceu e cresceu no departamento estudado), o que desloca o problema etnográfico clássico do acesso ao campo para o problema inverso da desnaturalização do familiar. O trabalho de campo articula três temporalidades (pré-geoparque, implementação e revalidação internacional), observação participante em eventos institucionais e comunitários, entrevistas etnográficas em profundidade e participação em fóruns da rede latino-americana de geoparques. A análise identifica quatro regimes de territorialidade operando em fricção simultânea sobre o mesmo solo: um regime geoinstitucional que produz legibilidade internacional; um regime cívico-ambientalista que precede o selo por três décadas; um regime de memória indígena que inscreve no dispositivo uma genealogia corporal irredutível às categorias da geociência; e um regime de saber ribeirinho que articula conhecimento ecológico situado com práticas de ofício. A proposição teórica central é a de uma entropia perspectiva, não existe um grau de entropia verdadeiro do território; o que cada regime experimenta como sinal é o que outro experimenta como ruído, e a redução de incerteza que um celebra pode ser vivida como silenciamento epistêmico por outro. A pergunta se desloca, assim, de o que o geoparque conserva para o que o geoparque torna visível e, ao fazê-lo, o que torna invisível; e em que medida essa invisibilização constitui não um erro corrigível mas uma propriedade estrutural de todo dispositivo classificatório que opera sobre um território habitado. Abstract: The patrimonialization of a territory operates simultaneously as revelation and as concealment, by rendering legible certain features of the soil, certain knowledges and certain voices, it relegates to the condition of noise other features, other knowledges and other voices that cohabit the same space. This dissertation takes as its object this dual operation through an ethnography of the Grutas del Palacio Geopark, the only UNESCO geopark in Uruguay, located in the department of Flores. The work is situated at the intersection of heritage anthropology, landscape anthropology and political ecology, and proposes to treat entropy (understood as a measure of perceptual and semantic uncertainty about what becomes relevant in an environment) as a heuristic for reading the effects of institutional classification on an inhabited territory. The theoretical framework articulates landscape as a practice of dwelling, assemblage as friction between heterogeneous scales and environmental heritage as a surpassing of the nature/culture dichotomy. Methodologically, the research is built from the position of neighbor-researcher (the author was born and raised in the department under study), which displaces the classic ethnographic problem of access to the field toward the inverse problem of denaturalizing the familiar. Fieldwork articulates three temporalities (pre-geopark, implementation and international revalidation), participant observation in institutional and community events, in-depth ethnographic interviews and participation in forums of the Latin American geopark network. The analysis identifies four regimes of territoriality operating in simultaneous friction over the same ground: a geoinstitutional regime that produces international legibility; a civic-environmentalist regime that precedes the seal by three decades; an indigenous memory regime that inscribes in the apparatus a corporeal genealogy irreducible to the categories of geoscience; and a riverine knowledge regime that articulates situated ecological knowledge with craft practices. The central theoretical proposition is that of a perspectival entropy, there is no true degree of entropy of the territory; what each regime experiences as signal is what another experiences as noise, and the reduction of uncertainty that one celebrates may be lived as epistemic silencing by another. The question thus shifts from what the geopark conserves to what the geopark renders visible and, in doing so, what it renders invisible; and to what extent this invisibilization constitutes not a correctable error but a structural property of every classificatory apparatus that operates over an inhabited territory. |
| Description: | Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Florianópolis, 2026. |
| URI: | https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/276651 |
| Date: | 2026 |
| Files | Size | Format | View |
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| PASO0677-D.pdf | 4.638Mb |
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