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Abstract:
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O presente trabalho procura reconstruir aspectos da biografia esportiva de João Carlos de Oliveira (1954-1999), atleta brasileiro, praticante de salto triplo, negro e membro do Exército, cuja carreira transcorreu durante a ditadura civil-militar (1964-1985). Importa identificar, na imprensa, como sua carreira serve como modelo de uma educação do corpo vinculada à sua performance e a aspectos que ela implica: superação, otimismo, progresso, desempenho, excepcionalidade militar, meritocracia, milagre, talento, mas também aspectos de classe e étnico-raciais, já que se tratava de um atleta negro, oriundo de camadas sociais vulneráveis. O esporte é uma das experiências em que melhor se combinam razão e magia, segundo uma dialética do esclarecimento, tal como propuseram Max Horkheimer e Theodor W. Adorno. “João do Pulo”, como ficou conhecido, personifica essa ideia, na medida em que sua performance é resultado de treinamento e ciência, mas a ele igualmente se atribui o recebimento de uma graça vinculada à crença e ao misticismo, tão disseminada durante os anos do “milagre brasileiro”, associada à grandeza da natureza deste país, mesmo que adormecida por anos de atraso que o projeto de modernização conservadora da ditadura procurava esconjurar. Foram analisados materiais da imprensa escrita e televisiva, considerando, a dialética entre progresso e regressão, tal como sugerida por Walter Benjamin. Financiado pelo Governo Federal, o atleta participou de estágios de treinamento na Alemanha. Sua condição de Cabo do Exército lhe garantia rendimentos e condições materiais que contribuíram para o desenvolvimento de sua formação esportiva. O aspecto militar de João, contudo, permaneceu latente mesmo após sua ascensão ao estrelato, dando continuidade à tradição brasileira de bons resultados no salto triplo. Todo esse processo coincide, ademais, com a promulgação da Lei nº 5.692/1971, que torna a dinâmica esportiva central na Educação Física escolar. Depois de Adhemar Ferreira da Silva e Nélson Prudêncio, João também atingiu o recorde mundial, em 1975, superando em 45 centímetros a marca anterior. No ano seguinte, alcançou a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos, em Montreal, resultado que se repetiu quatro anos depois, em Moscou. Em ambos os casos, o terceiro lugar foi considerado um fracasso, que se explicava pela falta de preparo emocional e técnico do atleta, embora, no segundo caso, discutiu-se a possibilidade de favorecimento aos atletas soviéticos devido às excentricidades da Guerra Fria. De qualquer forma, em uma e outra situação, pontificam discursos racistas vinculados à suposta debilidade emocional de pessoas negras, mencionando a incapacidade de articulação verbal (necessidade de intermediação) e certo “afrouxamento” em momentos decisivos – João, mesmo com seus resultados excepcionais no salto triplo e à distância, chegou a ser estigmatizado sob a alcunha de “João do Medo”. |