Ondas de Calor Marinhas no Norte da Península Antártica
Author:
Schmitt, Fernanda Oliveira
Abstract:
Ondas de calor marinhas (OCMs) são eventos extremos de temperatura, caracterizados por um período prolongado de aumento anômalo da temperatura da superfície do mar (TSM). Embora a ocorrência e a severidade das OCMs venham sendo documentadas em bacias de baixas e médias latitudes, o comportamento desses extremos em altas latitudes ainda recebe atenção limitada. O Oceano Austral desempenha papel central na regulação climática global, atuando como sumidouro de calor e de dióxido de carbono (CO2), e a região Norte da Península Antártica (NAP) é considerada um hotspot climático estratégico para identificar mudanças, variabilidade e vulnerabilidade dos ecossistemas marinhos antárticos. Diante disso, o presente trabalho teve como objetivo caracterizar a variabilidade da TSM e detectar se houve aumento na duração, frequência, intensidade e extensão espacial das OCMs na NAP entre 1982 e 2025. Foram utilizados dados diários de TSM e de concentração de gelo marinho do conjunto OISST (NOAA), aplicando-se a metodologia de Hobday et al. (2016) com uma climatologia de referência de 30 anos (1982–2011) e o limiar térmico do 90º percentil, descartando-se áreas com cobertura de gelo superior a 15%. Os resultados revelaram uma transição no regime térmico ao longo das últimas quatro décadas, migrando de um padrão predominantemente neutro ou negativo para uma dominância de anomalias de TSM positivas a partir de 2006, consolidada nos anos mais quentes da série (2020, 2022, 2023 e 2025). As propriedades médias das OCMs indicaram uma relação inversa entre intensidade e duração: a porção noroeste da área de estudo (Mar de Bellingshausen) exibe os eventos mais curtos, porém com os maiores picos de intensidade média e acumulada, associados à retração do gelo marinho e ao aprisionamento térmico por vórtices de mesoescala; já a porção sudeste da NAP apresenta OCMs menos intensas, mas com frequências elevadas e as maiores durações médias registradas, relacionadas ao aquecimento adiabático dos ventos de oeste (Efeito Föhn). Esses achados evidenciam que a resposta térmica da NAP às mudanças climáticas não é espacialmente uniforme.