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Abstract:
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É tradicional na Filosofia da Física defender que diferentes representações formalmente consistentes de uma mesma teoria possuem a mesma validade qualitativa, não havendo forma “superior” de expressá-la, mas apenas múltiplas formulações corretas. Exemplos clássicos incluem as abordagens newtoniana, lagrangiana e hamiltoniana na Mecânica Clássica, ou o Eletromagnetismo expresso por coordenadas cartesianas, tensores ou quatérnions. Essa pluralidade estende-se hoje aos sistemas complexos: na sociologia, a propagação de informação pode ser modelada por contágio epidemiológico ou dinâmica de agentes; na neurobiologia, a conectividade cerebral é descrita por modelos de cérebro total ou por métricas topológicas da teoria dos grafos.
Contudo, a prática científica contesta essa equivalência irrestrita. Filósofos questionam se o modelo trabalhado pelo pesquisador é genuinamente fiel ao seu objeto: as variáveis escolhidas são somente as suficientes e necessárias à representação do objeto físico intencionado, sem excesso ou falta de informação pertinente? Há transparência estrutural do sistema? São questões que a arbitrariedade representacional não satisfaz. É sob esse aspecto que abordo a discussão de Jill North sobre o grau de perspicuidade de representações físicas, i. e., o quanto uma representação teórica se alinha à estrutura de seu objeto físico intencionado.
Essa questão exige considerar o contexto atual da discussão sobre teorias, modelos e representações científicas, situado no antigo debate sintaxe-semântica da Filosofia da Ciência, onde esses conceitos recebem diferentes sentidos teóricos e metodológicos. Para articulá-la e delinear tais conceitos, a pesquisa recorre a um arcabouço multifacetado de autores, visando superar as limitações de cada perspectiva e aproveitar suas contribuições. Henri Poincaré identifica a motivação heurística da escolha entre formulações físico-matemáticas, mas carece de parâmetro objetivo ao fundamentá-la na intuição; Mario Bunge fornece rigor ontológico e metodológico para relacionar os conceitos estudados, embora imponha exigências axiomáticas custosas e distantes da prática científica; North oferece a perspicuidade como critério de avaliação, mas parte de um conceito de representação excessivamente genérico; e Roman Frigg, em Models and Theories, sistematiza tipos de modelos e representações científicas e as exigências para sua composição e escolha, embora evite deliberar sobre qual seria a melhor forma de representar. O diálogo entre essas abordagens, mantendo a investigação no campo da física e evitando extrapolar para uma teoria representacional da ciência em geral, fundamenta o delineamento conceitual e a aplicabilidade da proposta. A integração dessas perspectivas oferece, assim, um critério de perspicuidade mais refinado, historicamente reancorado na física e metodologicamente viável, além de mostrar que o caminho proposto encontra antecedentes já no início do século XX. |