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Abstract:
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O presente estudo analisa a infraestrutura da assistência farmacêutica e o acesso a medicamentos nas Centrais de Abastecimento Farmacêutico (CBAF) de municípios do interior do Amazonas, considerando o “fator amazônico”. Em uma região de grandes distâncias, transporte fluvial predominante, baixa densidade populacional e condições climáticas desafiadoras, a logística de armazenamento e distribuição de medicamentos é um dos principais entraves para a efetivação da Política Nacional de Assistência Farmacêutica (PNAF). A pesquisa busca compreender como esses fatores comprometem a disponibilidade de insumos e impactam a saúde da população amazônica.
A metodologia incluiu estudo descritivo, com coleta, organização e análise estatística de dados em 18 municípios, aplicados às CBAFs. Foram realizadas categorização e análise de imagens das unidades de armazenamento, associadas a informações cartográficas, além de revisão bibliográfica, discussão dos achados e participação em reunião online, promovendo integração entre grupos de pesquisa.
Os resultados indicam fragilidades: embora 81% das CAFs tenham ar-condicionado, apenas 38,1% monitoram a temperatura. A gestão de psicotrópicos também apresenta falhas, com 81% descumprindo a Portaria nº 344/98 e só 38,1% mantendo alvará sanitário atualizado. Quanto ao abastecimento, observou-se que medicamentos para doenças crônicas estão regulares em 17 municípios, mas ainda há lotes vencidos e ausência de informações sobre validade em itens como o esquema para hanseníase PB adulto. No caso de antídotos e soros, o cenário é crítico: apesar da presença dos soros mais demandados, não foi registrada a disponibilidade de antídotos fundamentais, expondo a população a riscos em emergências toxicológicas.
Os achados demonstram que o “fator amazônico” impõe barreiras à efetivação da assistência farmacêutica. Apesar da oferta de medicamentos para doenças crônicas em parte das unidades, persistem fragilidades estruturais e de gestão, como ausência de monitoramento da temperatura e carência de informações sobre validade. A falta de antídotos em todos os municípios representa grave risco sanitário, comprometendo a capacidade de resposta em situações emergenciais.
Conclui-se que a política nacional, embora essencial, não responde plenamente às especificidades amazônicas. É urgente investir em infraestrutura adequada, informatização de estoques, capacitação profissional e estratégias logísticas adaptadas à realidade hidrográfica e climática. Apenas por meio da regionalização efetiva da PNAF, aliada à inovação tecnológica e ao fortalecimento das capacidades locais, será possível garantir equidade no acesso a medicamentos e preservar a saúde da população amazônica. |