O objetivo desta pesquisa foi investigar como a crítica de Theodor W. Adorno e Max Horkheimer sobre a indústria cultural, desenvolvida na obra Dialética do esclarecimento, de 1947, pode nos ajudar a compreender aspectos da cultura brasileira, em especial da literatura periférica. Para isso, foi investigado o conceito de indústria cultural e analisada a obra Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, de Carolina Maria de Jesus, publicada no início da década de 1960. A pesquisa mostrou que a obra de Carolina Maria de Jesus foi recebida pela indústria editorial da época de modo ambivalente. Por um lado, é inegável a importância estética e contribuição da obra da autora para a literatura negra e feminina. Por outro lado, o modo como sua obra emergiu e foi circulada pode ser interpretado como parte de um processo de fetichização, ligado ao fenômeno que na pesquisa foi chamado de "periferização" da literatura de Carolina Maria de Jesus. Isso significa que a autora foi, de certa forma, fixada no estereótipo de uma pessoa "favelada que escreve sobre a favela", sem poder explorar outras possibilidades artísticas. Mesmo após melhorar suas condições materiais, sua figura continuou sendo vista por esse rótulo. A periferização funciona como uma falsa reconciliação: a autora é aceita no contexto da indústria cultural, mas por mecanismos reificadores.
Assim, a indústria cultural não apenas transforma a cultura em mercadoria, mas também periferiza o artista, limitando sua potência simbólica e artística. No caso de Carolina Maria de Jesus, o fetichismo e a periferização operaram juntos no momento do lançamento da autora, limitando sua obra e sua imagem a um estereótipo vendável. A pesquisa contribuiu, assim, para pensar as ambivalências presentes na dinâmica cultural brasileira, especialmente, relacionadas à literatura periférica