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Abstract:
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Neste trabalho pretendemos analisar sentenças interrogativas em Lung’Ie, com foco nas
interrogativas polares, a fim de compreender suas características entoacionais. O Lung’Ie é
uma língua crioula de base lexical portuguesa falada na Ilha do Príncipe, em São Tomé e
Príncipe. Sua formação remonta ao período de colonização portuguesa, sendo um dos ramos
do Protocrioulo do Golfo da Guiné (PGG), originado do contato entre o português europeu e
línguas do Delta do Níger e da região do Congo-Angola, faladas por povos escravizados
levados às ilhas. De acordo com pesquisas anteriores (Ferraz, 1979; Bandeira, 2017;
Agostinho, 2019), além do Lung’Ie existem outras três línguas crioulas derivadas do PGG:
Santome (ou Forro) e Angolar (AN), faladas em São Tomé e Príncipe, e Fa d’Ambô (FA),
falada em Ano Bom, na Guiné Equatorial. Como mostra Agostinho, Araújo e Santos (2019),
com exceção do Angolar, essas línguas apresentam uma partícula interrogativa final em
perguntas polares, representada fonologicamente pela vogal baixa /a/ ou por /aN/, traço
também encontrado em línguas do grupo edo, da região do Delta do Níger (Clements e
Rialland, 2007; Rialland, 2009). O aporte teórico deste estudo fundamenta-se na Linguística
de Contato, na Fonologia Entoacional e nos estudos sobre línguas crioulas. A pesquisa
apoia-se nas contribuições de Thomason (2001) sobre contato linguístico; de Muysken e
Smith (1994), Arends (1994), Holm (2004), Hagemeijer (2009; 2011) e Lucchesi (2019)
acerca da formação e reestruturação das línguas crioulas; no modelo métrico autossegmental
de Pierrehumbert (1980) e Ladd (2008), complementado pelo sistema ToBI e pelos estudos de
Gussenhoven (2004), Jun (2014), Garcia (1986), Moraes (2008), Nunes (2015) Antunes
(2026) sobre entoação e prosódia; além das contribuições de Rialland (2007, 2009), Clements
e Rialland (2007) sobre traços prosódicos africanos, e de Agostinho e Hyman (2021) e
Agostinho, Araujo e Santos (2019) para a descrição fonológica do Lung'Ie. Essa pesquisa
dialoga com estudos sobre o Fa d’Ambô (Agostinho; Araujo; Santos, 2019), nos quais os
autores analisaram o mesmo fenômeno na língua de Ano Bom. Para isso, nos baseamos em
um corpus (Agostinho, 2014) de áudios de 183 sentenças em Lung’Ie, gravado em 2014 pela
orientadora deste trabalho, que foram tratadas no software para análises acústicas Praat
(Boersma e Weenink, 2025). Para a análise, utilizamos o script Prosogram (Mertens, 2020),
cujo foco é computar e fornecer uma representação gráfica dos parâmetros acústicos e
perceptivos da fala, com foco principal nas variações de pitch. Os resultados revelam que as
interrogativas polares acompanhadas da partícula apresentam um padrão entoacional
decrescente, similar ao contorno das sentenças declarativas, tendo a partícula, portanto, uma
função sintática. Em contrapartida, as sentenças produzidas sem a partícula exibem uma
entoação crescente-decrescente, padrão mais próximo do português brasileiro (PB) (Moraes,
2008; Nunes, 2015; Agostinho, Araujo e Santos, 2019; Antunes, 2026). Dessa forma, com
este estudo, contribuímos para a descrição das características suprassegmentais dessa língua,
lançando luz sobre processos de formação histórica das línguas crioulas e sobre os efeitos do
contato linguístico, ao mesmo tempo em que evidencia a preservação de traços africanos na
gramática do Lung’Ie. |