SUTURA: costuras antropológicas de uma etnografia sobre a vida social dos mortos

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SUTURA: costuras antropológicas de uma etnografia sobre a vida social dos mortos

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Title: SUTURA: costuras antropológicas de uma etnografia sobre a vida social dos mortos
Author: Arrais, Flora Nina Silva
Abstract: A morte, longe de representar um ponto final, inaugura percursos desiguais na vida social dos mortos. Na sociedade ocidental moderna, quem morre, como morre e quais marcadores sociais e políticos atravessam os mortos em vida incidem diretamente sobre os rituais mobilizados, o reconhecimento conferido ao óbito e os destinos possíveis de seus remanescentes. Esses processos conduzem a uma reconfiguração de valores atribuídos aos seus corpos e identidades, que se transformam conforme são hierarquizados em seu morrer, produzindo trajetórias profundamente desiguais entre indivíduos também no pós-morte. Esta dissertação investiga a vida social dos mortos a partir da construção de uma etnografia multissituada que acompanha os percursos, usos e destinos de cadáveres e remanescentes humanos em diferentes contextos institucionais e sociais. O trabalho, centrado nas práticas e relações estabelecidas com os mortos após o fim biológico de sua vida, acompanha a circulação dos mortos por laboratórios, universidades, museus, cemitérios, documentos e arquivos. São observadas e discutidas as redes de sociabilidade, os regimes de valor e as disputas simbólicas e institucionais que atravessam mortos frequentemente marcados pelo anonimato, pelo desaparecimento e pela violação continuada de seus corpos. A dissertação foi desenvolvida por meio de trabalho de campo e observação participante, pesquisa bibliográfica e documental, análise de materiais institucionais e acompanhamento de notícias veiculadas em meios de comunicação online. Para lidar com um campo marcado por fragmentos e deslocamentos, a metáfora da costura e a noção de sutura, linhas, tecidos e malhas são acionadas como recurso teórico-metodológico, articulando os contextos e espaços adentrados à produção e análise etnográfica. Em conjunto a isso, a produção de desenhos e crônicas a partir dos dados do campo é mobilizada como forma de apreender a materialidade, os afetos, as histórias e os silêncios que compõem a vida social dos mortos. Ao discutir concepções de corpo, pessoa, objeto, técnica, ciência, educação, memória e reparação, argumento que os mortos, longe de constituírem um elemento puramente inerte, seguem agindo no mundo dos vivos, reorganizando práticas, instaurando dilemas éticos e evidenciando desigualdades persistentes. A dissertação sustenta, assim, que a morte se configura como um campo contínuo de negociações sociais, políticas e afetivas, no qual a dignidade póstuma, a memória e o esquecimento permanecem em disputa.Abstract: Death, far from representing a final point, inaugurates unequal paths in the social life of the dead. In modern Western society, who dies, how they die, and which social and political markers cross the deceased in life directly impact the rituals mobilized, the recognition granted to the death, and the possible destinations of their remains. These processes lead to a reconfiguration of the values attributed to their bodies and identities, which are transformed as they are hierarchized in their dying, producing deeply unequal trajectories between individuals even post-mortem. This dissertation investigates the social life of the dead through a multi-sited ethnography that follows the paths, uses, and destinations of cadavers and human remains in different institutional and social contexts. This study, centered on the practices and relations established with the dead after the biological end of their lives, tracks the circulation of these bodies through laboratories, universities, museums, cemeteries, documents, and archives. Social networks, regimes of value, and the symbolic and institutional disputes that cross the deceased?frequently marked by anonymity, disappearance, and the continued violation of their bodies?are observed and discussed in this paper. The dissertation was developed through fieldwork and participant observation, bibliographic and documentary research, analysis of institutional materials, and monitoring of news in online media. To deal with a field marked by fragments and displacements, the metaphor of sewing and the notions of suture, lines, fabrics, and meshwork are employed as theoretical-methodological resources, articulating the contexts and spaces entered into ethnographic production and analysis. In conjunction, the production of drawings and chronicles based on field data is mobilized as a way to grasp the materiality, affects, histories, and silences that compose the social life of the dead. By discussing conceptions of the body, person, object, technique, science, education, memory, and reparation, I argue that the dead, far from being purely inert elements, continue to act in the world of the living, reorganizing practices, instating ethical dilemmas, and evidencing persistent inequalities. Thus, this dissertation argues that death configures itself as a continuous field of social, political, and affective negotiations, in which posthumous dignity, memory, and forgetting remain in dispute.
Description: Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Florianópolis, 2026.
URI: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/274711
Date: 2026


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