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Abstract:
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Este Trabalho de Conclusão de Curso apresenta uma etnografia sobre as
dinâmicas de construção, performance e reafirmação das masculinidades em um
clube de poker na cidade de Florianópolis. O objetivo central é compreender como os
jogadores constroem identidades de gênero por meio das interações sociais que
emergem em torno do jogo. A pesquisa foi desenvolvida a partir da metodologia da
observação participante, na qual o autor atuou simultaneamente como pesquisador,
jogador e funcionário do clube, possibilitando uma inserção profunda nas relações
cotidianas, nos discursos e nas práticas que estruturam esse espaço social.
O referencial teórico está ancorado em Erving Goffman (1959; 2014), cuja
noção de performance e representação do eu fornece a base para interpretar o clube
como um “palco” onde se encenam papéis sociais e se negociam identidades.
Articulam-se ainda as contribuições de Raewyn Connell (1995), sobre a masculinidade
hegemônica e as hierarquias de gênero; Pierre Bourdieu (1998), com o conceito de
dominação simbólica; Judith Butler (1990), ao discutir a performatividade de gênero;
e Miriam Grossi (2006) e Peter Fry (1982), que problematizam as relações entre
sexualidade, classe e poder nas práticas masculinas.
O poker é analisado como um fenômeno cultural que transcende o jogo de
cartas, configurando-se como uma arena simbólica de disputa e afirmação de status,
virilidade e competência. A partir das observações, identificam-se discursos e
comportamentos que reproduzem modelos tradicionais de masculinidade baseados
em controle emocional, racionalidade e ostentação, mas também brechas de
vulnerabilidade e afeto entre os jogadores. O espaço do clube revela-se, assim, como
um microcosmo das relações de gênero na sociedade brasileira, onde valores como
sucesso financeiro, coragem e prestígio são performados e avaliados coletivamente.
Conclui-se que a masculinidade no clube de poker é uma construção relacional
e performativa, constantemente negociada no campo simbólico das interações. O
jogo, nesse sentido, constitui uma metáfora potente da própria sociabilidade
masculina contemporânea: uma combinação entre risco e controle, competição e
reconhecimento, aparência e pertencimento. |