Representações sociais de desastres e apego ao lugar de acordo com atingidos pelo rompimento da lagoa artificial de infiltração da Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) na Lagoa da Conceição/SC

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Representações sociais de desastres e apego ao lugar de acordo com atingidos pelo rompimento da lagoa artificial de infiltração da Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) na Lagoa da Conceição/SC

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Title: Representações sociais de desastres e apego ao lugar de acordo com atingidos pelo rompimento da lagoa artificial de infiltração da Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) na Lagoa da Conceição/SC
Author: Hodecker, Maísa
Abstract: A ocorrência de desastres no Brasil e no mundo tem aumentado exponencialmente, desencadeando danos sociais, econômicos, ambientais e psicológicos. As pessoas não só perderam suas residências, como perdem lugares carregados de memórias, vínculos e afetividade. Em 25 de janeiro de 2021 sucedeu um desastre ambiental na Lagoa da Conceição em Santa Catarina após o deslizamento de um talude natural que atuava na contenção de parte do volume da lagoa de evapoinfiltração que dispõe de efluentes tratados da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE). A água que verteu da lagoa inundou de forma repentina uma área urbanizada, localizada na Servidão Manoel Luiz Duarte e atingiu a Lagoa da Conceição, ocasionando diversos prejuízos materiais e imateriais ? inclusive a morte de animais marinhos e domésticos. Foram identificadas 35 residências e 66 pessoas prejudicadas significativamente pelo desastre ambiental. Essa pesquisa buscou compreender as relações entre representações sociais de desastre ambiental e apego ao lugar para pessoas afetadas pelo desastre ambiental na Lagoa da Conceição em Florianópolis/SC. Participaram da pesquisa sete pessoas atingidas (cinco do gênero feminino; dois do gênero masculino), com média de idade de 46 anos e 5 meses. Observa-se que a média aritmética de tempo de permanência dos participantes morando no mesmo lugar e residência é de 22 anos (M), ou seja, são moradores que possuem tempo significativo de vinculação com o lugar. A tese foi composta por quatro estudos. O Estudo 1 trata-se de uma pesquisa documental que utilizou como fonte principal de dados fotografias registradas em um protesto coletivo, analisadas a partir da Análise Semiótica de Barthes. Utilizou-se a técnica fotografando ambientes, na qual os próprios atingidos pelo desastre registram a fotografia, manifestando o registro de elementos que refletem sobre o sujeito que fotografa. O Estudo 2 trata-se de uma pesquisa qualitativa do tipo documental que adota um caráter descritivo-exploratório. Nesse estudo, a fonte de dados foram fotografias registradas a partir do estímulo verbal: ?registre uma imagem que te represente o desastre ambiental ocorrido na Lagoa da Conceição?. Foi realizada uma associação da técnica autofotográfica com a técnica Walk-around-the-block. As fotografias foram analisadas de acordo com a Análise Semiótica de Barthes. O Estudo 3 foi uma pesquisa qualitativa do tipo descritiva-exploratória que adotou uma abordagem multimetodológica, a partir de um corte transversal. Para a coleta de dados foram utilizados: 1) observação direta participante explícita com registro por meio do Diário de Campo; 2) questionário sociodemográfico; 3) entrevista semi-estruturada das RS sobre desastres ambientais e apego ao lugar com associação da técnica Walk-around-the-block. Os dados foram analisados a partir da Análise de Conteúdo Temático-Categorial de Bardin com auxílio do software Atlas/Ti 5.0®. No Estudo 4 foi realizada uma análise documental composta pelas transcrições na íntegra de atas de reuniões, assembleias e requerimentos elaborados pelos atingidos. Os resultados do Estudo 1 indicam que os signos principalmente apresentados nas imagens capturadas foram: 1) punhos erguidos fechados um símbolo comumente utilizado em campanhas na busca por direitos igualitários e resistência; 2) mensagens enfáticas utilizando termos como ?réu?, ?culpa? e ?crime?, referindo-se indiretamente a CASAN; 3) símbolos e personalidades políticas para pressionar autoridades competentes e agilizar o processo de retorno às suas vidas. Entende-se que mesmo passado um ano após o desastre, as pessoas atingidas ainda lutam para recuperar o que foi perdido e discutem entre si e com a CASAN em busca do ressarcimento integral e justo dos seus direitos. A comunidade ainda está se recuperando do desastre ocorrido, passando por uma reconfiguração. Porém, mesmo diante de uma tragédia, a comunidade enquanto grupo se fortaleceu diante dos movimentos sociais realizados em conjunto. Portanto, em meio ao caos, formaram uma rede de apoio com um objetivo comum: recuperar (parte) do que lhes foi tirado. Os resultados do Estudo 2 sugerem que, após o desastre, os vínculos afetivos com o ambiente foram modificados, apesar da reconstrução e retomada da funcionalidade. As fotografias demonstram que a vinculação afetiva e permanência no ambiente é influenciada pelas memórias afetivas, significados de lugar e importância no desenvolvimento da identidade, a história das famílias. Percebeu-se que a dimensão simbólica e temporal associadas sobressaem à funcional. Apesar da reconstrução do lugar, não houve a restauração dos sentimentos de segurança e apropriação, evidenciando que os impactos emocionais são tão significativos quanto os materiais. Os resultados do Estudo 3 revelaram cinco categorias de análise: 1) Dimensão informacional das representações sociais de desastre socioambiental; 2) Dimensão atitudinal das representações sociais de desastre socioambiental; 3) Dimensão de campo/imagem das representações sociais de desastre socioambiental; 4) Affordances de satisfação ambiental; e 5) Estratégias para lidar com o estresse pós-desastre. A dimensão informacional demonstrou que os moradores internalizaram o desastre como um evento de grandes proporções, que causa prejuízos integrais à vida dos atingidos e que necessita de reações imediatas. A dimensão atitudinal reflete as emoções de valência negativas, como raiva, medo, ansiedade, e o desejo por distanciamento do local afetado. A dimensão de campo/imagem revela a representação do desastre enquanto a imagem de um crime ambiental. As affordances de satisfação ambiental destacam os recursos locais e laços comunitários. As estratégias de enfrentamento incluíram o suporte social, a resolução de problemas, a evitação de fatores estressantes, apoio religioso/espiritual, monitoramento, busca por justiça e experiência do luto. A partir do Estudo 4, foram identificadas seis categorias e 15 subcategorias. Os documentos fornecidos evidenciam os impactos do crime socioambiental, que circundam esferas sociais, psicológicas, ambientais, educacionais, profissionais e econômicas; a mobilização e organização da comunidade para se recuperar da crise; reivindicações e demandas emergenciais para manter a dignidade enquanto buscam justiça; a ação jurídica e busca por justiça; divulgação midiática para conquistar visibilidade e justiça; (des)organização social e fortalecimento do senso de pertença social. Após o desastre, os afetados objetificam a empresa como culpada, ancorando suas representações em tragédias semelhantes, como Brumadinho e Mariana, para reivindicar reparação. A comunidade busca apoio jurídico, especializado e social para enfrentar os impactos, destacando a importância da mobilização coletiva por direitos socioambientais. Nesse sentido, essa tese abarca a importância de compreender fenômenos ambientais para além dos prejuízos financeiros causados, mas também as implicações afetivas, sociais, financeiras, cognitivas, de identidade de lugar, comunidade e territorialidade. Além disso, esse estudo configura-se um avanço para os estudos pessoa-ambiente por romper o desafio de compreender a pessoa em interação com o ambiente, e este último, não observado como objeto passivo de interação. Esses construtos e fenômenos ambientais foram investigados à luz da Teoria das Representações Sociais (TRS), proveniente da Psicologia Social, de modo a contemplar a dimensão social e também afetiva dessas relações pessoa-ambiente. Como sugestão de futuras pesquisas, indica-se explorar como as políticas públicas influenciam e são influenciadas pelas representações sociais dos desastres, com foco em práticas de gestão e recuperação.Abstract: The occurrence of disasters in Brazil and around the world has increased exponentially, triggering social, economic, environmental and psychological damage. People not only lose their homes, but also places filled with memories, bonds and affection. On January 25, 2021, an environmental disaster occurred in Lagoa da Conceição in Santa Catarina after a landslide of a natural slope that was acting to contain part of the volume of the evapoinfiltration lagoon that holds treated effluents from the Sewage Treatment Plant (STP). The water that spilled from the lagoon suddenly flooded an urbanized area, located in the Manoel Luiz Duarte easement and reached Lagoa da Conceição, causing several material and immaterial losses ? including the death of marine and domestic animals. 35 homes and 66 people were identified as having been significantly harmed by the environmental disaster. This research sought to understand the relationships between social representations of environmental disaster and attachment to place for people affected by the environmental disaster in Lagoa da Conceição in Florianópolis/SC. Seven affected people participated in the research (five female; two male), with an average age of 46 years and 5 months. It was observed that the arithmetic average of time that the participants lived in the same place and residence was 22 years (M), that is, they are residents who have a significant amount of time of connection with the place. The thesis was composed of four studies. Study 1 is a documentary research that used as its main source of data photographs taken in a collective protest, analyzed based on Barthes' Semiotic Analysis. The technique used was to photograph environments, in which the people affected by the disaster themselves took the photographs, manifesting the record of elements that reflect on the subject who took the photographs. Study 2 is a qualitative documentary research that adopts a descriptive-exploratory character. In this study, the data source was photographs taken from the verbal prompt: ?take an image that represents the environmental disaster that occurred in Lagoa da Conceição?. The autophotographic technique was associated with the Walk-around-the-block technique. The photographs were analyzed according to Barthes? Semiotic Analysis. Study 3 was a qualitative descriptive-exploratory research that adopted a multimethodological approach, based on a cross-sectional design. The following data were used for data collection: 1) explicit direct participant observation with recording through the Field Diary; 2) sociodemographic questionnaire; 3) semi-structured interview of the RS about environmental disasters and attachment to the place with association of the Walk-around-the-block technique. The data were analyzed based on Bardin?s Thematic-Categorical Content Analysis with the aid of the Atlas/Ti 5.0® software. In Study 4, a documentary analysis was conducted consisting of full transcripts of minutes of meetings, assemblies and requests made by those affected. The results of Study 1 indicate that the symbols mainly presented in the captured images were: 1) raised closed fists, a symbol commonly used in campaigns seeking equal rights and resistance; 2) emphatic messages using terms such as ?defendant?, ?guilt? and ?crime?, indirectly referring to CASAN; 3) symbols and political figures to pressure competent authorities and speed up the process of returning to their lives. It is understood that even a year after the disaster, the people affected are still fighting to recover what was lost and are discussing among themselves and with CASAN in search of full and fair compensation for their rights. The community is still recovering from the disaster and is undergoing a reconfiguration. However, even in the face of a tragedy, the community as a group has been strengthened by the social movements carried out together. Therefore, amidst the chaos, they formed a support network with a common goal: to recover (part of) what was taken from them. The results of Study 2 suggest that, after the disaster, the emotional bonds with the environment were modified, despite the reconstruction and resumption of functionality. The photographs demonstrate that the emotional bond and permanence in the environment are influenced by affective memories, meanings of place and importance in the development of identity, and the history of families. It was noted that the symbolic and temporal dimensions associated with the environment outweigh the functional ones. Despite the reconstruction of the place, there was no restoration of feelings of security and ownership, showing that the emotional impacts are as significant as the material ones. The results of Study 3 revealed five categories of analysis: 1) Informational dimension of social representations of socio-environmental disaster; 2) Attitudinal dimension of social representations of socio-environmental disaster; 3) Field/image dimension of social representations of socio-environmental disaster; 4) Environmental satisfaction affordances; and 5) Strategies for coping with post-disaster stress. The informational dimension demonstrated that residents internalized the disaster as a major event that causes comprehensive damage to the lives of those affected and requires immediate reactions. The attitudinal dimension reflects negative valence emotions, such as anger, fear, anxiety, and the desire to distance themselves from the affected location. The field/image dimension reveals the representation of the disaster as an image of an environmental crime. Environmental satisfaction affordances highlight local resources and community ties. Coping strategies included social support, problem-solving, avoidance of stressors, religious/spiritual support, monitoring, seeking justice, and experiencing grief. Based on Study 4, six categories and 15 subcategories were identified. The documents provided highlighted the impacts of socio-environmental crime, which encompass social, psychological, environmental, educational, professional and economic spheres; the mobilization and organization of the community to recover from the crisis; emergency demands and claims to maintain dignity while seeking justice; legal action and the search for justice; media coverage to achieve visibility and justice; social (dis)organization and strengthening of the sense of social belonging. After the disaster, those affected targeted the company as the culprit, anchoring their representations in similar tragedies, such as Brumadinho and Mariana, to demand reparations. The community seeks legal, specialized and social support to face the impacts, highlighting the importance of collective mobilization for socio-environmental rights. In this sense, this thesis encompasses the importance of understanding environmental phenomena beyond the financial losses caused, but also the affective, social, financial, cognitive, identity of place, community and territoriality implications. Furthermore, this study represents an advance in person-environment studies by overcoming the challenge of understanding people in interaction with the environment, and the latter not being seen as a passive object of interaction. These environmental constructs and phenomena were investigated in light of the Theory of Social Representations (TSR), derived from Social Psychology, in order to contemplate the social and affective dimensions of these person-environment relationships. As a suggestion for future research, we suggest exploring how public policies influence and are influenced by social representations of disasters, with a focus on management and recovery practices.
Description: Tese (doutorado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Florianópolis, 2024.
URI: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/271826
Date: 2024


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