| Title: | Escrever com: coautoria e encontrografia na Poesia Brasileira Contemporânea |
| Author: | Souza, Luciéle Bernardi de |
| Abstract: |
Discussões críticas ou historiográficas sobre o estatuto do autor ocupam a Teoria da Literatura desde a Idade Média até a contemporaneidade. A noção de autoria, criada na modernidade, está associada ao nascimento e ascensão do indivíduo, com uma concepção europeia de autossuficiência e autonomia. A função autor foucaultiana descreve o estabelecimento do autor como detentor dos sentidos e a coerência discursiva dos textos. Tal concepção ignorou e eclipsou formas estéticas-culturais que não entendem o autor como gênio criador. Na literatura brasileira contemporânea, outras formas de fazer literatura nos chamam a tensionar esse atrelamento entre indivíduo e autor. Focamos no descentramento discursivo causado pelo nome acompanhado e a propriedade compartilhada das obras em coautoria. No sentido amplo do termo, toda obra é escrita em coautoria, pois sempre há muitas mãos envolvidas na criação do livro. No entanto, as coautorias estudadas nesta tese são, efetivamente, um projeto e desejo de escrita e montagem compartilhada, caracterizada por um encontro, uma troca, não apenas entre as vozes poéticas, mas também de relação entre escritores reais. Nosso corpus foi constituído por quatro livros de poesia, delimitação necessária para a efetiva leitura das obras: Como se fosse a casa: uma correspondência, de Eduardo Jorge e Ana Martins Marques (2017); Duas Janelas, de Ana Martins Marques e Marcos Siscar (2016); amorhumorumor, de Alice Ruiz e Rodolfo Guttilla (2020); e A roda do mundo, de Ricardo Aleixo e Edimilson de Almeida Pereira (1996). À leitura destes quatro livros de poesia acrescentamos um breve recorrido por obras indígenas escritas em coautoria. Para a leitura desse corpus, propomos a abordagem da encontrografia, aproximando-nos ao processo de criação como modo de vida, como amizade, atentando para o encontro mais do que para o indivíduo. A coautoria implica a convivência de duas funções-autorais que se solapam e tensionam, e requer um olhar para o encontro plasmado dentro e fora dos textos em diversas formas de amizade, modo aberto de convivência não institucionalizada nem planificada. Na poesia moderna, a ideia de indivíduo e sua performance como voz poética culmina em um eu individualizado, tradicionalmente descrito como um \"eu-lírico\". A esta noção contrapomos um \"nós-lírico\", não como anulação do eu individual, mas como sua implosão pela relação intensa, seja na troca efetiva de palavras e verso ou na editoração. Sob o olhar encontrográfico, como modo de leitura da coautoria, todos os livros revelaram uma desestabilização da trama discursiva da função autor e indicaram desejos de conformação livre e não institucionalizada de modos criativos de convivência, no livro e na vida. Abstract: Critical or historiographical discussions about the status of the author have dominated literary theory from the Middle Ages to the present day. The notion of authorship, created in modernity, is associated with the birth and rise of the individual, with a European conception of self-sufficiency and autonomy. Foucault's author-function describes the establishment of the author as the holder of meaning and the discursive coherence of texts. This conception ignored and eclipsed aesthetic-cultural forms that do not understand the author as a creative genius. In contemporary Brazilian literature, other forms of literary production call us to question this connection between individual and author. We focus on the discursive decentering caused by the accompanying name and the shared ownership of co-authored works. In the broadest sense of the term, every work is co-authored, as many hands are always involved in the creation of the book. However, the co-authorships studied in this thesis are, in fact, a project and a desire for shared writing and editing, characterized by an encounter, an exchange, not only between poetic voices, but also by a relationship between real writers. Our corpus consisted of four books of poetry, a necessary delimitation for an effective reading of the works: Como se fosse a casa: uma correspondência, by Eduardo Jorge and Ana Martins Marques (2017); Duas Janelas, by Ana Martins Marques and Marcos Siscar (2016); amorhumorumor, by Alice Ruiz and Rodolfo Guttilla (2020); and A roda do mundo, by Ricardo Aleixo and Edimilson de Almeida Pereira (1996). To the reading of these four books of poetry, we add a brief tour of Indigenous works written in co-authorship. To read this corpus, we propose an encounterography approach, approaching the creative process as a way of life, as friendship, focusing on the encounter rather than the individual. Co-authorship implies the coexistence of two authorial-functions that undermine and tension each other, and requires a focus on the encounter embodied within and outside the texts in various forms of friendship, an open mode of coexistence that is neither institutionalized nor planned. In modern poetry, the idea of the individual and their performance as a poetic voice culminates in an individualized self, traditionally described as a ?lyrical self?. To this notion, we contrast a ?lyrical we?, not as the annulment of the individual self, but as its implosion through an intense relationship, whether in the effective exchange of words and verse or in publishing. From the encounterographic perspective, as a way of reading co-authorship, all the books revealed a destabilization of the discursive fabric of the authorial-function and indicated desires for the free and non-institutionalized formation of creative modes of coexistence, in the book and in life. |
| Description: | Tese (doutorado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Comunicação e Expressão, Programa de Pós-Graduação em Literatura, Florianópolis, 2025. |
| URI: | https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/270315 |
| Date: | 2025 |
| Files | Size | Format | View |
|---|---|---|---|
| PLIT1001-T.pdf | 3.912Mb |
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