Fazendo-rios: masculinidades quilombolas entre territórios e cuidados

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Title: Fazendo-rios: masculinidades quilombolas entre territórios e cuidados
Author: Santana, Thiago da Silva
Abstract: Esta tese examina a construção e a desconstrução da masculinidade entre homens negros quilombolas em Santa Catarina, articulando três eixos centrais: a família, o território e as práticas de resistência e cuidado. Parte-se do entendimento de que os quilombos são territórios vivos, carregados de memória, ancestralidade e organização coletiva, nos quais as relações sociais e políticas se entrelaçam continuamente. A expressão ?fazer rios é fazer família? sintetiza a maneira como essas comunidades constituem redes de parentesco estendidas, solidárias e muitas vezes matrifocais, desafiando modelos eurocêntricos de organização familiar. A pesquisa se apoia no feminismo negro e nos estudos de quilombismo, reconhecendo o protagonismo das mulheres na manutenção, transmissão e reprodução das comunidades. A masculinidade quilombola é concebida como campo de tensões e contradições, onde os homens são simultaneamente sujeitos da violência colonial e agentes de cuidado, proteção e resistência. O cuidado e a memória funcionam como lentes analíticas: o ato de cuidar não é apenas ético, mas político, conectando indivíduos e gerações, sustentando projetos de vida e reforçando vínculos com a ancestralidade. As práticas cotidianas revelam uma relação de interdependência com a terra e a noção de que o quilombo acompanha o quilombola, transformando o território em extensão viva da comunidade e de sua herança ancestral. A metodologia baseou-se em observação participante realizada com integrantes de comunidades quilombolas catarinenses, incluindo, entrevistas etnográficas e escuta comprometida. A pesquisa adotou uma etnografia itinerante e relacional, seguindo passos, rastros e conexões, acompanhando movimentos que atravessam comunidades, universidades, reuniões políticas, festas religiosas e espaços de negociação com o Estado. O percurso foi conduzido pelos encontros, convites e acontecimentos, uma etnografia multi-situada, e se configurou como uma prática de seguir redes vivas, permitindo acessar diferentes comunidades a partir de vínculos previamente estabelecidos. Essa forma de fazer campo também respondeu às condições concretas da pesquisa, marcadas pela dispersão geográfica das comunidades e pela impossibilidade de uma presença contínua em todas elas, exigindo uma postura implicada, adaptativa e atenta aos tempos de deslocamento, maturação e reciprocidade. Os achados indicam a interconexão entre masculinidade, família e território, destacando a ressignificação da masculinidade por meio da reciprocidade, do cuidado e da proteção coletiva, bem como as estratégias de resistência frente ao racismo estrutural e à violência institucional. A tese está estruturada em quatro capítulos, que vão desde os desafios metodológicos da pesquisa até a análise das dinâmicas familiares, das contradições de gênero e da relação intrínseca entre comunidade, território e masculinidade. Em síntese, o trabalho demonstra que a masculinidade, a família e o território são práticas políticas e éticas, profundamente entrelaçadas, que garantem a resistência à colonialidade, a afirmação de direitos e a preservação da memória coletiva.Abstract: This dissertation examines the construction and deconstruction of masculinity among Black quilombola men in the state of Santa Catarina, articulating three central axes: family, territory, and practices of resistance and care. It begins from the understanding that quilombos are living territories - spaces imbued with memory, ancestry, and collective organization - where social and political relations are continuously interwoven. The expression ?to make rivers is to make family? synthesizes how these communities create extended, solidaristic, and often matrifocal kinship networks that challenge Eurocentric models of family organization. The research draws on Black feminist thought and quilombismo studies, recognizing the central role of women in sustaining, transmitting, and reproducing quilombola communities. Quilombola masculinity is understood as a field of tensions and contradictions in which men are simultaneously subjects of colonial violence and agents of care, protection, and resistance. Care and memory function as analytical lenses: caring is not only an ethical act but a political one, connecting individuals and generations, sustaining life projects, and reinforcing ties with ancestry. Everyday practices reveal relations of interdependence with the land and the notion that the quilombo travels with the quilombola, transforming territory into a living extension of the community and its ancestral heritage. Methodologically, the research is grounded in participant observation conducted with members of quilombola communities in Santa Catarina, including ethnographic interviews and a commitment to attentive, relational listening. The study adopts an itinerant and relational ethnography, the ethnographic trajectory followed footsteps, traces, and connections, accompanying movements that traverse communities, universities, political meetings, religious festivals, and negotiation arenas with the State. The fieldwork path was shaped by encounters, invitations, and unexpected events - configured as a multisited ethnography and as a practice of following living networks that enabled access to different communities through previously established relationships. This mode of doing fieldwork also responded to concrete research conditions, marked by the geographical dispersion of communities and the impossibility of maintaining continuous physical presence in all of them, requiring an implicated, adaptive posture attentive to the temporalities of travel, relational maturation, and reciprocity. The findings highlight the interconnection between masculinity, family, and territory, emphasizing the reconfiguration of masculinity through reciprocity, care, and collective protection, as well as strategies of resistance to structural racism and institutional violence. The dissertation is structured into four chapters, ranging from methodological challenges to the analysis of family dynamics, gendered contradictions, and the intrinsic relationship between community, territory, and masculinity. In sum, the work demonstrates that masculinity, family, and territory function as deeply intertwined political and ethical practices that sustain resistance to coloniality, affirm rights, and preserve collective memory.
Description: Tese (doutorado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Florianópolis, 2025.
URI: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/270309
Date: 2025


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