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Abstract:
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A paralisia cerebral (PC) é caracterizada por alterações motoras permanentes decorrentes de lesão não progressiva no cérebro em desenvolvimento, afetando o controle postural, a coordenação e a eficiência do movimento. Essas limitações impactam diretamente o desempenho em modalidades esportivas de alta exigência neuromuscular, como o sprint, no qual a produção e a aplicação efetiva da força horizontal são determinantes para a aceleração e a manutenção da velocidade máxima.
Diante desse cenário, o presente estudo teve como objetivos: 1) analisar e comparar variáveis biomecânicas do sprint de atletas com PC e velocista sem deficiência (controle), destacando diferenças nos perfis força–velocidade e variáveis espaço-temporais; 2) testar a reprodutibilidade do perfil força-velocidade durante o sprint em corredores velocistas com e sem PC.
Participaram três atletas do sexo masculino: dois com PC — PC1 (hemiplegia, T37, 35 anos, 68kg) e PC2 (discinesia, T36, 33 anos, 58kg) — e um controle sem PC (18 anos, 85kg). As coletas ocorreram em pista oficial de atletismo, em dois momentos distintos, com intervalo de uma semana. Cada atleta realizou três sprints de 30 metros, registrados em vídeo e analisados pelo aplicativo MySprint®, ferramenta validada para mensuração indireta de variáveis mecânicas.
Foram avaliadas: força máxima teórica (F₀), velocidade máxima teórica (V₀), potência máxima relativa (Pmax), razão máxima de força horizontal (RFmax), declínio da razão de força (DRF) e variáveis espaço-temporais (comprimento e frequência de passo). Os resultados são apresentados em média, desvio padrão e coeficientes de variação (CVs).
Os atletas com PC apresentaram valores reduzidos de V₀, Pmax, RFmax e comprimento de passo em comparação ao controle, embora tenham mantido valores semelhantes de F₀. A frequência de passo foi próxima entre os três, sugerindo que a principal limitação dos atletas com PC está na amplitude dos movimentos, e não na cadência. Diferenças mais evidentes surgiram após os 15 metros, quando os atletas com PC mostraram maior dificuldade em sustentar a aceleração.
A consistência das medidas foi confirmada por CVs baixos. O controle apresentou os menores CVs em todas as variáveis (Vmáx: 0,46%; V₀: 0,04%; F₀: 0,57%). Já o PC2 registrou os maiores CVs (Vmáx: 4,32%; V₀: 4,57%; F₀: 6,56%), enquanto o PC1 obteve valores intermediários (Vmáx: 2,11%; V₀: 2,20%; F₀: 1,23%). Esses achados sugerem que o nível de funcionalidade ou o tipo de PC podem influenciar a reprodutibilidade.
Conclui-se que as principais limitações dos atletas com PC no sprint estão relacionadas à menor efetividade na aplicação da força horizontal e ao reduzido comprimento de passo. Os resultados reforçam a relevância do perfil força–velocidade como ferramenta prática de diagnóstico e treinamento, permitindo intervenções direcionadas à mobilidade, à técnica de corrida e à eficiência mecânica no esporte paralímpico. |