Entre a sede e estresse: o impacto do ambiente no equilíbrio cerebral e nas emoções
Author:
Demarchi, Mariana
Abstract:
A privação hídrica é uma condição de estresse osmótico que desencadeia respostas importantes no sistema nervoso central (SNC), ativando áreas do hipotálamo e o sistema renina-angiotensina (SRA). Nesse processo, a angiotensina II (ANG-II) exerce papel central, regulando parâmetros hidroeletrolíticos e modulando circuitos hipocampais e límbicos associados a emoções e comportamento. A ativação crônica desse sistema está relacionada a prejuízos cognitivos e ao aumento de comportamentos do tipo ansioso e depressivo. Apesar do conhecimento sobre os efeitos fisiológicos da privação hídrica, ainda é pouco compreendido como o enriquecimento ambiental (EA) pode modular tais respostas. O EA é uma intervenção muito estudada por seus efeitos positivos em modelos animais. Ao proporcionar estímulos físicos, cognitivos e sociais, promove neuroplasticidade, neurogênese e melhora de funções cognitivas e emocionais, além de atenuar efeitos de distúrbios neuropsiquiátricos. Entretanto, a literatura carece de investigações sobre sua influência em situações de estresse osmótico, especialmente no que diz respeito à ingestão hídrica e ao papel modulador da ANG-II. Essa lacuna motivou o presente projeto, que busca explorar a interação entre ambiente, sede e comportamento. Nosso objetivo geral é investigar os efeitos do EA sobre a sede e sobre os comportamentos cognitivos e emocionais em ratos submetidos à privação hídrica. Especificamente, pretende-se: (1) determinar se o EA altera a ingestão hídrica em animais privados de água; (2) avaliar se o EA modula comportamentos ansiosos e depressivos; (3) analisar se o EA influencia os níveis séricos de corticosterona e os níveis centrais de ANG-II; (4) verificar se há alteração na expressão de Fos e receptores AT1 em regiões hipotalâmicas; e (5) investigar o efeito da administração intracerebroventricular de ANG-II na expressão de Fos em regiões hipotalâmicas e límbicas em animais submetidos a EA e privação hídrica. Para isso, ratos Wistar serão alocados em caixas padrão ou em gaiolas de EA por seis semanas, sendo então submetidos a protocolos de privação hídrica. Serão realizados testes comportamentais, mensuração da ingestão hídrica em gaiolas metabólicas e análises hormonais e neuroquímicas. Com esta investigação, espera-se demonstrar que o EA promove maior resiliência ao estresse osmótico, modulando tanto a ingestão hídrica quanto os comportamentos de ansiedade e depressão. Além de ampliar o conhecimento básico em fisiologia e neurociência, os resultados podem trazer implicações translacionais, sugerindo que intervenções ambientais são capazes de influenciar sistemas neuroendócrinos e emocionais. Tal abordagem pode oferecer novas perspectivas para estratégias de prevenção e promoção da saúde, principalmente em contextos de vulnerabilidade, como em populações idosas ou em condições de estresse crônico, em que a percepção da sede e a regulação emocional estão frequentemente comprometidas.
Description:
Seminário de Iniciação Científica e Tecnológica.
Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Ciências Biológicas. Departamento de Ciências Fisiológicas.