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Abstract:
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Este trabalho é fruto do Programa Voluntário de Iniciação Científica, iniciado recentemente em julho de 2025, sob orientação da professora Andréa C. Scansani. Seu desenvolvimento faz parte das ações do grupo de pesquisa da UFSC certificado pelo CNPq, o CLAC (Cinemas latino-americanos e caribenhos: conversas pluridimensionais).
Angela Ndalianis, Vivian Sobchack e Laura Marks demonstram que a experiência do cinema se configura como um campo de fricção entre imagem e corpo: som, composições e atmosferas projetadas na tela reverberam no espectador, instaurando respostas corporais. Segundo Ranciére, a ficção ‘tem efeito no real, ao definir regimes de intensidade do sensível, traçando mapas do visível, trajetórias entre o visível e o dizível, relações entre modos do ser, modos do fazer e modos do dizer’ (2005, p.59). No gênero de horror, essa fricção ganha intensidade: medo, nojo, vertigem. Emoções que não permanecem restritas aos personagens da tela, provocando também no espectador uma resposta ao mesmo tempo sensorial e cognitiva.
Nesta pesquisa, partimos da revisão bibliográfica para fazer uma análise de dois filmes de horror latino-americanos, dirigidos por mulheres — Medusa (2021; Brasil), de Anita R. da Silveira, e Huesera (2022; México/Peru), de Michelle G. Cervera — buscando compreender como esse gênero pode ser um modo de produção de conhecimento e reflexão sobre as realidades nas quais estamos inseridos. Nessas obras, elementos de possessão e maldição saltam na tela como uma materialização da repressão psíquica de suas protagonistas, que surgem para tensionar seus (e nossos) cotidianos, e para revelar desejos suprimidos. Assim, nos debruçamos para a questão feminina como modo de promoção da igualdade e democracia.
Medusa constrói sua ficção a partir de acontecimentos reais — inspirando-se em grupos de mulheres conservadoras que atacavam aquelas consideradas transgressoras- e da ascensão das igrejas evangélicas no Brasil, cuja influência consolidou-se na política de extrema-direita na última década. Inserido nesse contexto fundamentalista, o filme expõe como os corpos femininos são disciplinados, vigiados e punidos. As visões e possessão aparecem, assim, como a concretização do desejo e da raiva feminina contidas e silenciadas ao longo dos séculos.
Enquanto Medusa parte do contexto político brasileiro, Huesera aborda em sua narrativa uma questão mais abrangente da sociedade patriarcal: a maternidade compulsória. A entidade maligna que persegue a protagonista atua como a materialidade dos seus desejos reprimidos, da qual ela só consegue se libertar a partir do rompimento com expectativas familiares e sociais.
Ambos os filmes provocam respostas sensoriais e cognitivas, esmaecendo fronteiras entre ficção e realidade ao expor a repressão e a violência que estruturam os cotidianos das mulheres e revelando o gênero de horror como uma ferramenta potente de desestabilização das narrativas dominantes e de reivindicação de subjetividades silenciadas. |